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Fernanda Maciel estabelece novo recorde ao cruzar o Salar de Uyuni em menos de 20 horas

Fernanda Maciel no Salar de Uyuni segurando um produto Mombora
Escrito por Michel Correa

Ultramaratonista brasileira, patrocinada pela Mombora, percorreu 172,8 quilômetros na Bolívia em 19h50min08s, superando em 13h14min a marca masculina registrada no Guinness World Records

Foto de capa: imagem fornecida no release; fotógrafo não identificado.

A ultramaratonista brasileira Fernanda Maciel, patrocinadora pela Mombora, estabeleceu um novo tempo mais rápido conhecido (Fastest Known Time — FKT) para a travessia do Salar de Uyuni, na Bolívia. A atleta percorreu 172,8 quilômetros entre a vila de Llica e a cidade de Uyuni em 19 horas, 50 minutos e 8 segundos, concluindo o desafio à 0h50 de 29 de setembro.

A tentativa começou às 5h do dia 28 de setembro, em Llica, no oeste do salar. O percurso incluiu aproximadamente 145 quilômetros sobre o deserto de sal e outros 27,8 quilômetros pela estrada até Uyuni, onde a atleta encerrou a travessia em frente à igreja da cidade.

Localizado a cerca de 3.700 metros acima do nível do mar, o Salar de Uyuni é considerado o maior deserto de sal do mundo. A rota percorrida por Maciel acumulou aproximadamente 311 metros de ganho de elevação. Segundo os dados divulgados pela atleta, o tempo registrado foi 13 horas e 14 minutos inferior ao recorde masculino do Guinness World Records para o percurso.

“Eu não tinha uma meta de ritmo, porque não se trata de uma trilha, nem de uma corrida no asfalto e o percurso não está ao nível do mar. Precisei adaptar minhas pernas a um ritmo no qual meu corpo aguentasse correr 170 quilômetros em altitude, em um deserto”, afirmou Maciel.

Fernanda Maciel corre pelo Salar de Uyuni, com montanhas ao fundo
Imagem fornecida no release; fotógrafo não identificado.

Chuva e terreno instável marcaram a travessia

As condições encontradas no Salar foram diferentes das esperadas pela atleta. Após uma tempestade de granizo, partes do deserto de sal estavam cobertas por água, enquanto outros trechos apresentavam lama e pequenas cavidades preenchidas por água subterrânea.

A irregularidade do terreno exigiu atenção constante durante a corrida. No quilômetro 145, ao deixar o salar e seguir pela estrada em direção a Uyuni, Maciel trocou de tênis e meias após passar horas atravessando áreas alagadas.

“Encontrei muitas surpresas durante a travessia. Parte do deserto estava coberta de água, parte estava lamacenta e outra parte tinha muitos pequenos buracos com água subterrânea. Precisei prestar atenção o tempo todo em onde estava pisando”, relatou.

A mudança de terreno também marcou um momento decisivo para a atleta. Após 16 horas e 45 minutos de esforço, ela percebeu que poderia concluir o percurso em menos de 20 horas. Apesar do desgaste acumulado, tentou aumentar o ritmo nos quilômetros finais.

“Minhas pernas estavam destruídas, eu não conseguia mais alongar as passadas. Sei correr nas montanhas, mas não em terreno plano. Eu já não tinha mais força, mas dei o meu melhor”, contou.

Alimentação e altitude foram desafios

Embora a experiência em grandes altitudes tenha contribuído para a preparação, manter a alimentação ao longo de quase 20 horas de corrida foi uma das principais dificuldades. Segundo Maciel, após os primeiros 100 quilômetros, a tolerância aos alimentos diminuiu, limitando sua ingestão a pequenas porções de banana, géis e produtos da Mombora, marca de nutrição esportiva.

“Minhas pernas estavam bem com a altitude, mas meu estômago, não. Depois de 100 quilômetros correndo sem parar, ficou difícil comer”, explicou.

A navegação também exigiu atenção, especialmente durante a noite, quando a ausência de referências visuais dificultava a orientação em meio à imensidão do deserto. A atleta utilizou uma rota previamente mapeada no celular para seguir o trajeto estabelecido.

A experiência acumulada em projetos de subida e descida de montanhas como Aconcágua, Vinson, Kilimanjaro e Carstensz foi outro fator importante para enfrentar as exigências fisiológicas do percurso.

“Minha consistência na corrida ao longo de toda a distância foi muito melhor do que eu imaginava. Na minha opinião, foi incrível”, afirmou.

Três meses antes da tentativa, Maciel havia rompido um ligamento do pé e tinha dúvidas sobre como a lesão responderia ao esforço prolongado. Durante a travessia, porém, não sentiu dores na região.

Apoio da equipe foi decisivo

A preparação envolveu treinamento específico, experiência em ultramaratonas, planejamento nutricional e suporte logístico. Durante o percurso, o cinegrafista e integrante da equipe Juvenal prestou assistência à atleta, especialmente em relação ao abastecimento de água.

“Eu não conseguiria fazer isso sozinha, carregando toda a água comigo. O fato de ter o Juvenal me dando suporte fez toda a diferença”, destacou.

O projeto original também previa a subida do vulcão Tunupa após a travessia. A atleta, no entanto, decidiu abandonar essa etapa ao avaliar as limitações práticas e legais para realizar a ascensão integral. A alternativa disponível permitiria chegar a aproximadamente 5.100 metros de altitude, sem completar a subida planejada, além de exigir desvios da rota e possivelmente uma nova travessia do salar.

“Para mim, já não fazia sentido. Seria esforço demais — atravessar o Salar duas vezes — por algo que nem sequer seria possível: completar toda a subida do Tunupa”, explicou.

Projetos além das competições

Com aproximadamente duas décadas de experiência em provas de ultradistância, Fernanda Maciel também se dedica a desafios fora do calendário tradicional de competições. Para ela, projetos como a travessia do Salar de Uyuni oferecem a oportunidade de enfrentar condições imprevisíveis e explorar os limites do desempenho físico em ambientes extremos.

“Esses projetos de longa distância são completamente imprevisíveis em relação ao resultado, e isso me assusta. Mas também adoro essa sensação, porque é algo novo para o qual preciso me preparar e com o qual preciso me conectar”, afirmou.

A travessia de 172,8 quilômetros reuniu desafios relacionados à altitude, às condições climáticas, à navegação e à resistência física. Ao chegar a Uyuni após 19h50min08s, a brasileira concluiu o percurso com um novo tempo de referência para a travessia, resultado de sua experiência em ultramaratonas e da capacidade de adaptação às condições encontradas ao longo do caminho.

Sobre o autor

Michel Correa

Paulista de 44 anos, agile consultant e product manager.
Corredor de maratonas nas horas vagas.